24 de abril de 2010

rouge, gasosa, serpentinas













Sombrearam com tons verdes os
olhos pequenos. Esfregaram as pestanas com
pomada de sândalo e
manjerona.
Cobriram de ouro as omoplatas e os
mamilos. Besuntaram, cúmplices, com
gordura de cabrito e sabão das
Gálias os antebraços e as
gargantas. Nas faces redondas puseram

rouge.

Ele convidara-as para a sua festa de
carnaval na casa de férias da
Trafaria.
Nesse domingo de Fevereiro, bateu-lhe à porta o
ouro do Nilo em duplicado. Foi abrir de
peito inchado, vestido à dono da
Bretanha e, recolhendo-as, uma e
outra, debaixo da túnica, conduziu-as ao
quintal, para uma

gasosa.

Cheiravam bem. Tomaria um banho no
meio das duas em leite de
cabra, mesmo sabendo que os seus soldados passavam
fome. Elas sorriam-lhe enigmáticas e
pisavam-lhe como cleópatras desafiadoras as
sandálias.
Davam-lhe beijos arrebatados, que se misturavam com
papelinhos de furador e

serpentinas.

Ao fim da tarde, acompanhou-as com a sua
espada ao cais de embarque, de onde
partiram com o papá, que diziam chamar-se
Ptolomeu. Cruzaram o Tejo num
cacilheiro melancólico,
refectido como em tela de cinema nos
óculos dele, que visionou com nostalgia o
regresso a casa das suas
rainhas.


22 de abril de 2010

o exame













Quando crescesse, teria também uma
cartola alta
e um fino bigode, para se exibir no
Cardinalli. Pediria a mão da
princesa Narda
e desposá-la-ia em Xanadu, num
quarto com cama de dossel e
televisão,
para verem juntos a

eucaristia dominical.

Adepto fanático do Mandrake, só desejava que o
célebre mágico dos quadradinhos
o transformasse num
pterodáctilo
à solta no dia do exame, que diziam ter
contas de fugir e

ditados custosos.

Deus, Senhor, que o perdoasse, mas gostaria que um
hectolitro de água benta se evaporasse por
cada verbo mal conjugado ou
tropeção nos

decimais.

Se o velho Mandrake não cumprisse, vestiria a
pele dum pobre moçárabe reconvertido e
partiria para o
Magrebe,
mesmo sabendo que no meio da
cáfila não acharia uma
doce Narda para o consolar nesse
infortúnio.

O exame é que não.

20 de abril de 2010

a pérola













Saía cedo à segunda-feira com um lenço de
organza cintilante sobre os ombros e um
cíngulo clássico de contas de
jaspe. Levava à escola, pela mão que cheirava a
creme Atrix,
o filho precioso, para lá o deixar, após um

beijo

repenicado, embrulhadinho no
bibe lavado, como se se tratasse duma
jóia persa.
Juntos seguiam, no tempo das férias, para uma
oficina de bijutarias com cheiro a
pérolas nacaradas e cornalinas de brilho cambiante, num
glamouroso terceiro andar que espreitava o

Rossio.

À uma, comiam, num
estabelecimento da Rua da Prata com cheiro a
fritos. Ela comprava-lhe, depois do
bife com ovo a cavalo, o último número do
Zé Carioca.
Para si, feminina, metia na mala a
revista Crónica,
que folhearia ao fim da tarde no banco do

Metro

depois de pousar na boca plástica uma
chiclete.
Ele, enlevado, fitá-la-ia, até
emergirem encalorados do ventre dos

Anjos.

Mesmo sem brincos de lápis-lazúli nem
pestanas de Sophia Loren, ela
encantava-o, como saída de uma
concha em jeito de

pérola iridescente.

19 de abril de 2010

detergente, caneladas, burriés












De mala às costas, Guilherme transpunha a
porta de casa, pesando as
contas de multiplicar que lhe enxameavam o
caderno diário.
Dino visitava-o no fim dos deveres, para
imaginarem, flatulentos, a

bicicleta

à Joaquim Agostinho que a sorte lhes traria pelo
Natal, ou para cus-
pirem com balanço e ao desafio para o terraço da
porteira,
que era estúpida e cheirava a

Omo.

Coleccionavam, no dia seguinte, buracos nas calças e
nódoas negras nas
canelas.
Na ausência de esférico, pegavam no
“Espaço: 1999” e acomodavam-se com as
mãos riscadas pelas

canetas

de feltro aos comandos da
Eagle, para descolarem como
Alan Carter e John Koenig em direcção a
Marte.
Às vezes, escondiam-se num
recanto qualquer a tirar

macacos

do nariz e a moldá-los entre os
dedos
como berlindes, para os lançarem depois pelo
ar, a ver quem chegava mais longe.