19 de setembro de 2010

après toi













“Coitado do Jorge”, porque era
domingo e não se ouvia a
Vicky Leandros
no quarto da vizinha Filomena, a dar-lhe festinhas no
coração.
Afadigada sobre o tanque, entre os
vasinhos multicolores,
esfregava as

meias.

Rodrigo, a pique, media-lhe os
peitos, tremelicantes como
gelatina. Media-lhe curta a
saia beje de musselina que dependurava no

estendal.

Quem a amparava, prestimoso, era o
Escocês, com os tarequinhos da mercearia, que
pesavam muito, não fosse a
menina Filomena dar cabo da pose, que era tão
“british”. Pedia-lhe ele que lá fosse a casa, no próximo
domingo, depois da novena. E, sob as barbas da
vizinhança, lá ia ela. A saia curta de
musselina, como um

OVNI,

atravessando a ruela esconsa, em direcção ao
ninho do ruivo. E até o cãozinho, que o
Jorge lhe dera antes de embarcar, a
procurava interrogativo da
varanda, entre os

mirtilos.

Rodrigo, jocoso, cantarolava: “Tu t’en vas...". A mãe
teimava em não perceber o que vira a
Mena no forasteiro e então repetia: “Coitado do
Jorge”. Quem a adivinhava era o
papá - ele ensinava-lhe, prestimoso, os
prazeres da Escócia: bucho recheado e a

gaita de foles.

18 de setembro de 2010

a tia vermelha












Prestara-lhe serviço o decapitado de
Santa Comba, pois que ela fugira em
sessenta e nove de anel no
dedo
com um poeta russo para debaixo da
Ponte Salazar,
onde encontrara a

liberdade

da língua. Talvez por isso, lançou-se um
dia, como um peão de infantaria, à
porta de Belém,
empunhando uma faixa a favor do
divórcio
e maldizendo o Código Civil e os
filhos ilegítimos da

Concordata.

Talvez por isso, odiava as
freiras e outras mulheres cujas
cabeças
serviam apenas para enfiar o
lenço.
Levava a sobrinha a colar
cartazes
na acção militante do

MRPP

e à noite saía, como desenhada por
Mordillo, a pintar paredes por baixo da
lua.
Por baixo dos néons e dos
cartazes publicitários com
maminhas e

cuecas Triumph.

lassie













Gostava da hóspede lá de casa, a
dona Guida, que se vestia à
antiga e partilhava com ela o
sofá de corte vitoriano, enquanto escutava no
Telefunken
Os Parodiantes. Sentavam-se ambas em

pose retratável,

de garupa altiva, como se estivessem no
castelo de Windsor
e fossem a collie da rainha inglesa e a
própria monarca. Perdiam a
postura depois da
açorda
com joaquinzinhos, deitando-se
redondas e bocejantes sobre o

divã de molas.

Só se deixavam quando José, regressado da
escola, corria à despensa para se ir
sentar sob a
figueira
do quintal com uma caneca de
Ovomaltine e uma

carcaça.

Depois do lanche, ela fitava-o com
glamour de Rin tin tin, esperando uma
bola
a correr pelo ar ou um
pau de sabugo. Dona Guida descobria neles o
Jeff Miller de cabelo doirado e a célebre

Lassie,

de que a rafeira herdara o
nome e a pelagem fulva. Guida
adorava-os. Até quando
seguiria atenta da
marquise
o filme dos dois, na sua
gincana costumeira, entre os
lilases e as

couves galegas?

13 de setembro de 2010

o pintor













Capaz seria, como Jan Palach, de pegar-se
fogo. O avô espanhol republicano fora a
centelha - vivia em
Málaga,
no coração de Trinidad, onde
aguardava a visita dele a meio de
Agosto, numas águas furtadas com cheiro a
linhaça e tintas de

óleo.

De manhã, pintava. À noite, estendia-se no
canapé com um livro de
Lorca,
beberricando compridamente o seu
conhaque, enquanto
Picasso,
o velho siamês, lhe lambia os
pés. Recolhia ao quarto com dores nas
costas, depois de expulsar pela
janela a fumarola de um

Ducado

e suspender na torre de San Pablo os
olhos amenos, da cor do mar da
Andaluzia.
Vicente escrevia-lhe. Tinha saudades de
passear com ele. De comer com ele
pescaíto frito
numa esplanada de Guadalmar. Ao melhor amigo mostrara o
disco de verdial malaguenho que de lá trouxera no
último Verão e o

sombrero

de palma. Também lhe falara da Primavera de
sessenta e oito e de
Jan Palach.
Só em Lisboa o tempo morria, com o seu crónico
domingo cinzento: de manhã missa, à tarde
cinema – os manos saíam até ao
Condes
para verem os sopapos do
Bud Spencer e depois passarem pela
Pindô para um gelado de
fruta. Ele, arredio, ficava em casa. Preferia os
bonecos do Vasco Granja, com sabor a

Checoslováquia.