
“Coitado do Jorge”, porque era
domingo e não se ouvia a
Vicky Leandros
no quarto da vizinha Filomena, a dar-lhe festinhas no
coração.
Afadigada sobre o tanque, entre os
vasinhos multicolores,
esfregava as
meias.
Rodrigo, a pique, media-lhe os
peitos, tremelicantes como
gelatina. Media-lhe curta a
saia beje de musselina que dependurava no
estendal.
Quem a amparava, prestimoso, era o
Escocês, com os tarequinhos da mercearia, que
pesavam muito, não fosse a
menina Filomena dar cabo da pose, que era tão
“british”. Pedia-lhe ele que lá fosse a casa, no próximo
domingo, depois da novena. E, sob as barbas da
vizinhança, lá ia ela. A saia curta de
musselina, como um
OVNI,
atravessando a ruela esconsa, em direcção ao
ninho do ruivo. E até o cãozinho, que o
Jorge lhe dera antes de embarcar, a
procurava interrogativo da
varanda, entre os
mirtilos.
Rodrigo, jocoso, cantarolava: “Tu t’en vas...". A mãe
teimava em não perceber o que vira a
Mena no forasteiro e então repetia: “Coitado do
Jorge”. Quem a adivinhava era o
papá - ele ensinava-lhe, prestimoso, os
prazeres da Escócia: bucho recheado e a
gaita de foles.



