29 de agosto de 2010

coração itinerante













Escutava ainda o rufo suspenso dos
timbales
e a voz do mestre de cerimónias, emproada e
sustenida, abrindo o número do

funâmbulo.

Pareceu-lhe ver, no terreiro deserto, com a
fronte voltada para o fim do mundo, o engolidor de
fogo.
François, il-même, arlequim vistoso, em
simultâneo mestre de andas e

malabares.

Talvez voltasse no ano seguinte e a convidasse para um
número a dois. Segui-lo-ia, engalanada de plumas brancas e
maiô, da velha rulote até à liça, para cruzarem de
bicicleta,
venturosos e palpitantes, a

corda bamba.

Talvez voltasse. Mas, até lá, sobrar-lhe-ia o
terreiro deserto, que cruzaria de manhã cedo a caminho da
escola, rigorosa e sedentária, que lhe educava as

ilusões.

Regressaria Jean François? Sorriu confiante, ao recordar a
voz cigana de Carmenzita, que num
baralho de pergaminho
a viu cruzar de bicileta a corda bamba e lhe fez
rufar como um timbale o

coração itinerante.

10 de agosto de 2010

verão de 77












Plutão, distante, podia esperar. Como
Evelina, a avó paciente, que
na açoteia junto à margem do Gilão fazia
naperons.
Não lia jornais. Mas diariamente colava-se defronte do
matutino com o neto por
dentro. Não lhe agradava que os
maricanos lançassem

mánicas

pelo astro fora, com o som das
ondas quebrando na praia e choros de
bebé. O Senhor
punia. Bernardo, sorrindo, ainda avançou que a nova

Voyager

levava música da Terra, rezando para si que
dum tipo francês, o do
Oxigène, embora preferisse imaginar que fosse do
Elvis: o Love me Tender, que ele
dançara na matiné com a

menina inglesa.

Que faria ela àquela hora no frio de
Manchester,
que se não avistava do alto da
torre octogonal?
Lembrá-lo-ia sempre que olhasse no
toucador o naperonzinho da
avó Evelina, como cortado duma

porta de reixa?

Viria à janela, de
bata indiana e olhos com glitter, para ver no
postal
que ele lhe mandara da sua Tavira os
telhados de tesoura? Desejaria ela
perderem-se ambos por
cima deles, a bordo da

Voyager,

enquanto escutassem na voz do rei o
Love me Tender? Respondeu Evelina que
se levava música da terra devia ser

fandango.