20 de abril de 2010

a pérola













Saía cedo à segunda-feira com um lenço de
organza cintilante sobre os ombros e um
cíngulo clássico de contas de
jaspe. Levava à escola, pela mão que cheirava a
creme Atrix,
o filho precioso, para lá o deixar, após um

beijo

repenicado, embrulhadinho no
bibe lavado, como se se tratasse duma
jóia persa.
Juntos seguiam, no tempo das férias, para uma
oficina de bijutarias com cheiro a
pérolas nacaradas e cornalinas de brilho cambiante, num
glamouroso terceiro andar que espreitava o

Rossio.

À uma, comiam, num
estabelecimento da Rua da Prata com cheiro a
fritos. Ela comprava-lhe, depois do
bife com ovo a cavalo, o último número do
Zé Carioca.
Para si, feminina, metia na mala a
revista Crónica,
que folhearia ao fim da tarde no banco do

Metro

depois de pousar na boca plástica uma
chiclete.
Ele, enlevado, fitá-la-ia, até
emergirem encalorados do ventre dos

Anjos.

Mesmo sem brincos de lápis-lazúli nem
pestanas de Sophia Loren, ela
encantava-o, como saída de uma
concha em jeito de

pérola iridescente.

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