25 de novembro de 2010

as time goes by












Plantando Mariana do outro lado do
auscultador, ao toque dramático do telefone ninguém
acorreu. Talvez Cristina o não escutasse com o
secador de cabelo. Pior Arlete, que surda era como uma
porta e nesse instante rezaria o

terço.

Onde estava Aurora àquela hora, pregando-a no
Éden com os bilhetes na
mão? Luigi esperava-a noutra parte da
cidade, cantando para dentro uma
canção nervosa. Pensou-a descendo o degrau do
eléctrico, entre os homens com
chapéus e gabardines,
que subiam anímicos ao Restelo para o

jogo da bola.

Os olhos cravaram-se-lhe penosamente nos
ponteiros do Ômega. Se não era
Aurora, onde estava ela àquela hora, causando-lhe
cólicas bogartianas? Altiva chegou, de cintura estreita e
chapéu clássico,
como Ingrid Bergman. Olharam os

Jerónimos,

pela última vez, e a via sacra do jardim, onde aos
domingos se comportavam como um
casal de pombos.
Chegariam, céleres, da Calábria, mil desculpas a
Mariana. E o relato dum
amor
inexplicável, como se Aurora desaparecera
verdadeira
do bairro de Alcântara com o
Humphrey Bogart. Como num
filme.

The End.

Para ti, lagartinha...


13 de novembro de 2010

a vizinha do quarto andar












Com os cabelos refugiados num
toalhão de cornucópias, mandou-o

en-

trar. Subira insofrido, mandado pela mãe,
para procurar se a menina Isaura teria de sobra algum
Vigor. “A ver se dá sorte", endereçou-lhe o
tipo de bigode que fumava no
quarto com modos de
actor enquanto preenchia um
Totobola.

José, perdido, só tinha olhos para a
cama desfeita da menina Isaura, comprada há dias na

Moviflor.

Dizia-se dela que tinha fama no
Tamariz
e "costurava" nas "soirés" do Casino Estoril os seus
vestidos cinematográficos, à
Jane Fonda. A dona Joaquina da
padaria vendia mesmo que um dos
homens
que habitualmente a trazia a
casa vertia águas numa

sanita

de ouro! Isaura trouxe-lhe o desejado
Vigor e José despediu-se, embriagado com o
sabonete Lux.
Sentiu-se caído duma nuvem alta quando chegou ao

rés-do-chão

4 de novembro de 2010

a carta













Brincavam os pombos, como sombras chinesas, nas
telhas de vidro. Sentado à beira do
colchão, Zezé bocejava, olhando a caixa de
bichos-da-seda
que lhe dera o pai, antes de o deixar com a
avó Piedade
e de o trocar por uma

máquina escavadora

do porto de Sines. Do
lustre antigo, pendia uma
aranha,
que o escoltava enfiado nas
meias. Zezé, roufenho, zunia que
sim. A avó Piedade, que matava os
ratos do quintal com trigo roxo, parecera-lhe
mole, interrogando-o, com brandura, da cozinha, se queria o

Toddy.

O pai quando vem? – tornava-lhe ele do meio da sala com os
dentes tortos, enquanto explorava uma
narina. Piedade esquivou-
-se direito ao quarto, vergada aos
bicos de papagaio
e balouçando a perna bamba, que pedia um

calço.

Colou-se defronte da virgem santa e, mastigando a
carta de luto,
do Ministério das Obras Públicas, escutava em
eco, pesadamente: o

pai

quando vem? Volveu nervosa, como um soldado que viesse
matá-lo. Mas, na cadeira onde o deixara, folgava o

gato.

Ainda o avistou pela janela, ao fundo da
rua, seguido do céu pelo Mimoso – seu
papagaio desconcertante, de

papel almaço.

2 de novembro de 2010

belmiro












Até mulatas para lhe coçarem as costas! Tinha
dinheiro e criados para
tudo! – rezava, de cor, o avô Belmiro, sobre o
fascista
a quem a Domingas lavava as
cuecas. Velho marialva e filho dum cão que,
metido no Bentley, visitava à noite as

boites da Linha!

Para não o ouvir, a avó Domingas espregui-
çava-se na cozinha, de combinação com
flores, cantando o fado enquanto se
peidava e fritava

iscas.

Depois de jantar e
ouvir a Domingas falar da festa da paróquia e do
peditório, o avô Belmiro evaporava-se, mordendo nos
padres,
que eram germes de bigamia e
concubinato. Azedo, lá ia, tratar do fígado no

Cais do Sodré,

com as aguardentes. Voltava a casa aos zigue-
-zagues, entoando modinhas, para se olvidar dos tempos no
Aljube e dos esbirros do
governo, que, teimosamente, ainda o
perseguiam. Cedo, no sábado, reencontrava na
varanda o lavatório de
ferro forjado e o

espelho

antigo, do tempo de
solteiro. Então, barbeava-se. À
tarde, janota, acompanhado dum
saco de pevides,
corria ao “Piolho”, para a
sessão contínua. Recolhia a casa, mordendo na
chuva, depois de fisgar na
Rua da Palma o pifarinho do

amola-tesouras.

29 de outubro de 2010

a ilha













O leite quente. Os olhos mínimos. Com
remelas.
Maria pedia-lhe para se apressar, enquanto
guardava na marmita as
costeletas.
Jesus enfiava o lábio de cima na
caneca dos pastorinhos e analisava com testa de ciência a

lata de Milo.

A barba rala. Botins calçados. Caído no maple , José
roncava,
recém chegado da
amante francesa. De manhã, largava-
-a, mexeriqueira, no salão, com os

dedos compridos

enfiados nos olhos da
manicure, que lhe consertava os
erros das unhas e da
língua.
Pelo inverno, depois da comédia no
Parque Mayer, José aquecia-a no
Boca de Sapo,
com a cassete da

Jane Birkin.

Às vezes, perdiam-se, passando os rostos da cor de
cerejas pelo guichê duma
pensão
com cheiro a velas e
naftalina. Maria calava, com o
destino que deus lhe dera, os

loiros cabelos

que não eram seus. Jesus, menino, lhe
sobejava, como uma
ilha
no coração. O leite
quente. Os olhos mínimos. Com

remelas.

10 de outubro de 2010

peregrinação












Careca e pesado, fumando sempre, o
tio Moisés vivia sentado como um
buda tailandês,
coçando o lombo com o pé descalço ao
cão Piruças – fiel apóstolo que só o largava para um
xixi
junto à cabana do quintal, ao pé dos

coentros.

Lá repisou, naquela tarde, a tia Perpétua o
deitar cedo, para não falharem o
carro das sete. Carregando a cruz do
paganismo, conspirava o
primo Libânio – avesso à história dos

milagres,

citava de cor o Ievtuchenko, de quem se tornara,
nos subterrâneos da faculdade, amigo do peito. Serafim
escutava-o, confidente, enquanto
mascavam no quintal umas
azedas,
entre as galinhas da Perpétua e a
coelheira do Moisés, com bebedouros e
caganitas onde aterravam as

moscas.

O primo Libânio batia no
clero,
que alimentava em nome do Estado um
povo de joelhos e o
caprichoso mercado da fé, à sombra de
Fátima!
Serafim espionava, a ver com olhos de

clandestino

se a tia assomava. O primo Libânio imaginava com
piedade o tio Moisés, de
barriga deserta,
a comer as moelas da Perpétua num
parque de merendas,
para compensar as dores nos pés da

procissão das velas.

1 de outubro de 2010

horizontes













Calados ambos e, como figuras de
mural etrusco, ele muito vermelho e branca ela. A
avó Felismina descar-
rilando, cobrindo-se-lhe de moscas a
voz bigodeira. Os filhos pequenos! Não tinham dó dos

filhos pequenos?

Sabino queixou-se, de mãos atadas, olhando o
relógio.
Pegou nas malas de coiro castanho e,
espadaúdo, soltou um
adeus insuportável. Com cheiro a culpas e a
tabaco, arredou-se da
sogra. Alice beijou-a. Que lhe
não deixasse morrer as flores e tomasse os
remédios. Desapareceu na escuridão da
ferrovia como um

espectro,

em direcção a um certo país das
maravilhas que, doutro mundo, a
reclamava. Amortalhada na
veste negra
ficou Felismina, severa

sombra

rumorejante. Marchou-se vergada, como se
tornada dum enterro, em direcção ao
monte. Sentou-se à ilharga da
videira, que Sabino plantara, com os
netos pequenos. Sem

horizontes.

Olhando, insípida, as orquídeas e os
crisântemos.
De novo, Alice: que lhe não deixasse morrer as
flores.
Os olhos queimaram-se-lhe. Sentiu uma
água melancólica que lhe regou as

pupilas.

19 de setembro de 2010

après toi













“Coitado do Jorge”, porque era
domingo e não se ouvia a
Vicky Leandros
no quarto da vizinha Filomena, a dar-lhe festinhas no
coração.
Afadigada sobre o tanque, entre os
vasinhos multicolores,
esfregava as

meias.

Rodrigo, a pique, media-lhe os
peitos, tremelicantes como
gelatina. Media-lhe curta a
saia beje de musselina que dependurava no

estendal.

Quem a amparava, prestimoso, era o
Escocês, com os tarequinhos da mercearia, que
pesavam muito, não fosse a
menina Filomena dar cabo da pose, que era tão
“british”. Pedia-lhe ele que lá fosse a casa, no próximo
domingo, depois da novena. E, sob as barbas da
vizinhança, lá ia ela. A saia curta de
musselina, como um

OVNI,

atravessando a ruela esconsa, em direcção ao
ninho do ruivo. E até o cãozinho, que o
Jorge lhe dera antes de embarcar, a
procurava interrogativo da
varanda, entre os

mirtilos.

Rodrigo, jocoso, cantarolava: “Tu t’en vas...". A mãe
teimava em não perceber o que vira a
Mena no forasteiro e então repetia: “Coitado do
Jorge”. Quem a adivinhava era o
papá - ele ensinava-lhe, prestimoso, os
prazeres da Escócia: bucho recheado e a

gaita de foles.

18 de setembro de 2010

a tia vermelha












Prestara-lhe serviço o decapitado de
Santa Comba, pois que ela fugira em
sessenta e nove de anel no
dedo
com um poeta russo para debaixo da
Ponte Salazar,
onde encontrara a

liberdade

da língua. Talvez por isso, lançou-se um
dia, como um peão de infantaria, à
porta de Belém,
empunhando uma faixa a favor do
divórcio
e maldizendo o Código Civil e os
filhos ilegítimos da

Concordata.

Talvez por isso, odiava as
freiras e outras mulheres cujas
cabeças
serviam apenas para enfiar o
lenço.
Levava a sobrinha a colar
cartazes
na acção militante do

MRPP

e à noite saía, como desenhada por
Mordillo, a pintar paredes por baixo da
lua.
Por baixo dos néons e dos
cartazes publicitários com
maminhas e

cuecas Triumph.

lassie













Gostava da hóspede lá de casa, a
dona Guida, que se vestia à
antiga e partilhava com ela o
sofá de corte vitoriano, enquanto escutava no
Telefunken
Os Parodiantes. Sentavam-se ambas em

pose retratável,

de garupa altiva, como se estivessem no
castelo de Windsor
e fossem a collie da rainha inglesa e a
própria monarca. Perdiam a
postura depois da
açorda
com joaquinzinhos, deitando-se
redondas e bocejantes sobre o

divã de molas.

Só se deixavam quando José, regressado da
escola, corria à despensa para se ir
sentar sob a
figueira
do quintal com uma caneca de
Ovomaltine e uma

carcaça.

Depois do lanche, ela fitava-o com
glamour de Rin tin tin, esperando uma
bola
a correr pelo ar ou um
pau de sabugo. Dona Guida descobria neles o
Jeff Miller de cabelo doirado e a célebre

Lassie,

de que a rafeira herdara o
nome e a pelagem fulva. Guida
adorava-os. Até quando
seguiria atenta da
marquise
o filme dos dois, na sua
gincana costumeira, entre os
lilases e as

couves galegas?

13 de setembro de 2010

o pintor













Capaz seria, como Jan Palach, de pegar-se
fogo. O avô espanhol republicano fora a
centelha - vivia em
Málaga,
no coração de Trinidad, onde
aguardava a visita dele a meio de
Agosto, numas águas furtadas com cheiro a
linhaça e tintas de

óleo.

De manhã, pintava. À noite, estendia-se no
canapé com um livro de
Lorca,
beberricando compridamente o seu
conhaque, enquanto
Picasso,
o velho siamês, lhe lambia os
pés. Recolhia ao quarto com dores nas
costas, depois de expulsar pela
janela a fumarola de um

Ducado

e suspender na torre de San Pablo os
olhos amenos, da cor do mar da
Andaluzia.
Vicente escrevia-lhe. Tinha saudades de
passear com ele. De comer com ele
pescaíto frito
numa esplanada de Guadalmar. Ao melhor amigo mostrara o
disco de verdial malaguenho que de lá trouxera no
último Verão e o

sombrero

de palma. Também lhe falara da Primavera de
sessenta e oito e de
Jan Palach.
Só em Lisboa o tempo morria, com o seu crónico
domingo cinzento: de manhã missa, à tarde
cinema – os manos saíam até ao
Condes
para verem os sopapos do
Bud Spencer e depois passarem pela
Pindô para um gelado de
fruta. Ele, arredio, ficava em casa. Preferia os
bonecos do Vasco Granja, com sabor a

Checoslováquia.

29 de agosto de 2010

coração itinerante













Escutava ainda o rufo suspenso dos
timbales
e a voz do mestre de cerimónias, emproada e
sustenida, abrindo o número do

funâmbulo.

Pareceu-lhe ver, no terreiro deserto, com a
fronte voltada para o fim do mundo, o engolidor de
fogo.
François, il-même, arlequim vistoso, em
simultâneo mestre de andas e

malabares.

Talvez voltasse no ano seguinte e a convidasse para um
número a dois. Segui-lo-ia, engalanada de plumas brancas e
maiô, da velha rulote até à liça, para cruzarem de
bicicleta,
venturosos e palpitantes, a

corda bamba.

Talvez voltasse. Mas, até lá, sobrar-lhe-ia o
terreiro deserto, que cruzaria de manhã cedo a caminho da
escola, rigorosa e sedentária, que lhe educava as

ilusões.

Regressaria Jean François? Sorriu confiante, ao recordar a
voz cigana de Carmenzita, que num
baralho de pergaminho
a viu cruzar de bicileta a corda bamba e lhe fez
rufar como um timbale o

coração itinerante.

10 de agosto de 2010

verão de 77












Plutão, distante, podia esperar. Como
Evelina, a avó paciente, que
na açoteia junto à margem do Gilão fazia
naperons.
Não lia jornais. Mas diariamente colava-se defronte do
matutino com o neto por
dentro. Não lhe agradava que os
maricanos lançassem

mánicas

pelo astro fora, com o som das
ondas quebrando na praia e choros de
bebé. O Senhor
punia. Bernardo, sorrindo, ainda avançou que a nova

Voyager

levava música da Terra, rezando para si que
dum tipo francês, o do
Oxigène, embora preferisse imaginar que fosse do
Elvis: o Love me Tender, que ele
dançara na matiné com a

menina inglesa.

Que faria ela àquela hora no frio de
Manchester,
que se não avistava do alto da
torre octogonal?
Lembrá-lo-ia sempre que olhasse no
toucador o naperonzinho da
avó Evelina, como cortado duma

porta de reixa?

Viria à janela, de
bata indiana e olhos com glitter, para ver no
postal
que ele lhe mandara da sua Tavira os
telhados de tesoura? Desejaria ela
perderem-se ambos por
cima deles, a bordo da

Voyager,

enquanto escutassem na voz do rei o
Love me Tender? Respondeu Evelina que
se levava música da terra devia ser

fandango.

22 de julho de 2010

o rapaz da máquina fotográfica












Naquela tarde, não tocaria à
campainha.
Imaginou-a entusiasmada na varanda, entre a
glicínia de cachos floridos,
pavoneando-se como uma
estrela de cinema
perante o nórdico recém chegado e a sua

Kodak.

Não voltaria a ler-lhe os versos do
António Aleixo, a meio do pão com
doce de tomate. A pendurar-lhe entre os cabelos uma
papoila.
A colher para ela, do topo das
silvas, a troco de nódoas e
arranhaduras,

amoras grandes.

Reclamaria no dia seguinte o
grilo cantante
que lhe oferecera pela Quaresma, numa
gaiola de aramezinhos
que ele mesmo fizera. Desdita, ela, pediria
tréguas. Mas vê-lo-ia partir desavindo, sem
compreender por que se entregara de

verniz nas unhas

e olhos pintados aos galanteios dum
príncipe sueco.
Sem poesias nem frutos silvestres; com a Reflex a tiracolo e um
Super Maxi, ele conquistara-a!
Bem lhe dissera o bom do avô não haver
regra sem excepção nem
mulher sem senão.
Perdão, por isso, era o que faltava! Nem
com um banho de

acetona!

19 de julho de 2010

a filha do embaixador













Como rematando um show de barras assimétricas, des-
fez-se gímnica do cavalinho após o
flash,
correndo para ele com o seu dinâmico
corpo raquítico
e as tranças louras esguedelhadas, à

boneca de trapos.

Avistara-o junto à tília do jardim com a
bola de basquete,
enquanto esperava sobre o
pónei com rabo de corda o passarinho do

senhor fotógrafo.

Partiria no dia seguinte para a capital da
bola de creme, onde os
bonecos dos semáforos tinham
chapéu de agricultor e
corpo de saloio atarracado. Para a não
esquecer, deixar-lhe-ia de recordação a
fotografia do cavalinho e o

bastãozinho

de majorette com que marchara no
carnaval.
Frau Böll chamou-a, que tinham de ir à
cabeleireira e à Rosinha dos

atoalhados.

Que a não esquecesse. Nem que forçada a pular o
muro, regressaria. Havia de
vê-lo, daí a uns anos, a encestar da
linha de lance livre com a
camisola do

Sangalhos.

10 de julho de 2010

um beijo daqueles













Ninguém pulava como Mimi o
cavalo com arções. Possuía
pernas
incrivelmente arti-
cula-
das, que aconchegava durante o
inverno
na intimidade dos
seus grossos

colãs.

Sem grande ginástica, seduziu
Tozé, garoto com estampa de
aviador e temperamento de
Sandokan.
A meio das aulas de
catequese, man-
dava-lhe cartas muito bem redigidas a cheirar a
perfume.
Ganhava de volta, embrulhadinhos num

planador,

jetémes fogosos. Caçou-os um dia o
senhor vigário,
que em tom teatral glosou Tozé perante o
rebanho,
elevando a voz no
fim da prosa para enfatizar o seu pedido de
um beijo daqueles
como os que davam na

"Gabriela".

Tozé susteve-se, rosnando baixinho, como um
tigre da Malásia.
Mimi curvou desamparada sobre a
Bíblia
a sua pobre cabeça. Foi como
se caísse do

cavalo com arções.

19 de junho de 2010

concorde












Vira-o rasgar o céu de Paris no
mês de Julho, quando visitara com os primos franceses a
Torre Eiffel.
O pai jurava que se deslocaria a caminho da
América, do lado oposto do
Oceano Atlântico, para lá chegar primeiro que o
sol e o seu próprio

som.

Dizia ver-se espantosamente pela janela a
Terra curva. E se alguém,
perdido,
no meio do mar, pudesse avistá-lo, não escutaria nenhum
ruído até que a vista enfim o
perdesse e então lhe chegassem, como
trovoada,
as ondas de choque e o

estrondo sónico.

Parecido com aquilo, ele só conhecia o
Niki Lauda. Correu por isso à
biblioteca a saber tudo do
mítico pássaro de nariz adunco, em forma de
lápis.
A tia Angélica expediu-lhe de França, pelo Natal, um
um modelo à escala. Dependurou-o no
céu do quarto em pose de

gaivota

com fio de nylon. Perdeu-se depois, durante uns anos, a
olhar para cima, imaginando-se de
camisa branca
na carlinga do Concorde a caminho da
América
e do seu sonho: uma aterragem glamourosa em
Nova Iorque,
ao som sinfónico de monsieur

Pourcel.

15 de junho de 2010

os sousa












Partiam melódicos com o
Demis Roussos pela estrada fora. Rolavam
felizes, na Primavera, para um
piquenique
num pinhal qualquer, a caminho do
Meco. Paravam o

Mini

em domingos molhados numa valeta de
Sacavém e, enquanto as
Sagres
esperavam por eles no
frigorífico, saíam à caça de
caracóis. Metiam na

mala,

quando vinham as férias, a
tenda comprada a prestações e desa-
-pareciam para o sol do
Algarve,
dependurando sob as
estrelas, por escassos dias, a
cama de rede e o

petromax.

Depois, a curva por Estremoz e o
Arraial. Setembro, o Avante e o
Álvaro Cunhal. O Norte viria pelo

Natal:

andavam de burro em Samaiões e comiam
alheiras, voltando bucólicos ao
Alto do Pina,
para se domesticarem,
televisivos, com as
variedades do

Reveillon.

Largavam de Mini, no dia seguinte, cruzando
melódicos, com o
Demis Roussos, a Marginal, até à
Boca do Inferno.

“Pevides, tremoços, queijadas de Sintra!”


10 de junho de 2010

fiesta












Repentinos, sibilantes, choviam
foguetes. Misturado com o cheiro a estrume e o
traje festeiro das raparigas, corria o suor de
improvisados

toureiros.

Engalanados de
peões de brega, encenavam cites e lances de
capote. Faziam de conta que empunhavam
bandarilhas
e, às vezes, dançavam, como

berlindes,

por baixo do
bicho. Lavavam as feridas com
cervejas minis e,
logo renascidos, de mãos na ilharga e
curvilíneos,
citavam de largo, executando
paradinhas, e prometendo, como
acrobáticos guarda-redes, suster no abdómen a

cabeçada.

Mas o bovídeo, que até se vestia da cor do
Eusébio, passava à
defesa. Inerte ficava, com focinho de
Jesus Cristo, pregado às

tábuas.

O público, bravo, marrava com
ele. Cornudo, teimoso, assim seria até que
viessem, chocalheiras, as vacas madrinhas para o
recolher. Debandava indigno, sem seguir glorificado para o
matadouro,
como os tios de cartaz. O povo vaiava. Recomeçava o
paso doble. De novo estalava no céu um

morteiro.

2 de junho de 2010

pátria












Também o seu filho penara de botas e
camuflado no mato de Nampula. Tornara à
metrópole ao fim duns tempos, sem
arranhões. Que era valente. Saía ao pai, graças a

Deus.

Olhando a rua desinteressado pela
janela, como se houvesse
entre ele e o mundo uma
nuvem branca
que o não deixasse ver nada, Tomé
escutava confidente o

motorista de Taxi,

que tinha o tique despreocupado de
afagar o bigode vicking e
uma taberna na Rua das Pretas à
espera dele depois do turno com um
jarro de vinho e um prato de

pipis.

Largá-lo-ia no cais da Rocha com a
esposa magra e o filho pequeno, que lhes
perguntava a cheirar a
Toddy o sentido da
pátria.
Tomé apertou-o, enquanto deixava desa-
parecer, imperturbável como um
vicking
a quem não morrem os

filhos

valentes, o motorista de Taxi. Ali
ficaram, cabisbaixos, sob a sombra do
grande navio, esperando o mano devolvido à
terra numa caixa de pinho, com o
dever cumprido. Ao vento, no mastro, o
escudo pomposo e os

castelinhos.

1 de junho de 2010

pedra rara













Que o Rei de Copas era o único sem
bigode. Que avó em russo era
Babushka. Que havia no
mundo tantas galinhas quanto
pessoas. Que os escaravelhos sabiam a
fruta. Que não existiam

flores pretas.

Maria da Luz tinha
olhos grandes.
Caracterizava-se, talvez por isso, por ser a
alminha que mais sabia acerca de
tudo o que não viesse nos
livros. O seu saber desconcertante e o
nome de gosto iluminista a
condizer faziam dela uma

pedra rara.

Vivia num beco do
Alto do Pina, sob guarida da
tia Aurora, que não lhe comprava as
sapatilhas
para a ginástica nem
Tulicreme
enquanto não viesse o

pai embarcado.

Um dia a vida escangalhou-se pela
escada abaixo
na pessoa trágica da
Tia Aurora.
Maria levou-lhe no
adeus para sempre o ramo de

gardénias

de que ela tanto gostava. Marchou-se com o
pai, umas semanas depois, em direcção à
Venezuela.
Partiu sem novas do Tulicreme. Sem
alegria nos olhos grandes. Sem

sapatilhas.

21 de maio de 2010

champanhe ou margarina?













Tinha sardas e lia livros do
Michel Vaillant. Vestia-se bem. Forrava o
caderno com cromos da bola e transferia-
-se aos domingos para o
Estádio da Luz, onde o esperava o

Eusébio.

Tinha conversas de
polimento. Falava elegante sobre a
crise do petróleo e a descolonização. Tinha no
quarto alcatifado um
gira-discos da Grundig e ouvia
Amália com o coração. Seria
piloto quando fosse grande. Correria

Le Mans,

como o herói de Jean Graton, e, depois do
pódio, teria uma bela rapariga loira à
espera dele num hotel do
Mónaco para uma
noite de

champanhe.

Enquanto o tempo não
passasse, continuaria a treinar em
casa com a afilhada da vizinha, a quem ajudava na
aritmética.
Vaillantina, como ele lhe chamava, usava
calças de patchwork e
pulseirinhas com

missangas.

Não era loira, mas tinha olhos de
actriz francesa e, depois das
contas de dividir, fazia-lhe
torradas e via com ele a sessão do
Bonanza. Sem que ele lhe pedisse, ainda o
abraçava fogosamente e dava-lhe beijos a saber a
Planta. Faria melhor

Françoise Latour?

19 de maio de 2010

o projector












Morrera de cólera o velho de binóculos ao
pescoço e bigode à czar, que
fumava dentro duma moldura sobre o
piano um certo

cachimbo

de roseira brava. Eduardo
sorria, enquanto, pomposo, acariciava com um
gracejo o vetusto engenho: «Sem
bobines, seria uma
máquina de café». E, perante os

olhos

maravilhados da assistência, ressuscitava no
quarto escuro a maquineta, do tempo de
Carmona. Leões, serpentes e

crocodilos:

a fauna inteira migrara de África para a moradia do
Areeiro, nas curtas-metragens do
avôzinho. Eduardo vestia-se de
narrador.
Explicava a táctica dos
leopardos e os arrufos dos
gorilas, enquanto a

mana,

mostrando-se temente, se enroscava como
tímida macaca
no melhor amigo – compartilhavam um pacote de
Sugus
e terminavam foragidos, a
visionar, sem riscos e a
cores, como no
View Master,
os sonhos guardados no

quarto dela.

15 de maio de 2010

dama das camélias












Deixava a escola com o
paizinho, que se transportava numa
Lambretta.
Diego erguia-se no muro do pátio em
bicos
de
pés,
para a ver partir de cabelo esvoaçante, com pinta de

jockey.

Sonhava-se dono da
motoreta, que imaginava da cor do
ébano, com um Z, no flanco, em
labaredas.
Sonhou-se nela, de capa e espada e
chapéu negro, em direcção a um
campo de sorgo ou de
algodão
no meio do

México,

com o coração da sua señorita a soar-lhe nas
costas e ele o herói. Elena ela, arranjadinha de
alto
a
baixo
como a donzela do
mascarilha,
com o seu clássico vestido folhado e a
flor vermelha no
cabelo.
Que mosca lhe dera pelo

Entrudo,

tomando el Zorro por cabotino? – desceu-se da
mota,
vestida à Dama das Camélias e, com passinhos de
mademoiselle,
arredou-se dele, que a procurava do meio do
pátio em pose patética de
espadachim.
Aristocrática, foi abraçar com
traje cortês e almiscarada de pó de arroz o

Pimpinela Escarlate!...

10 de maio de 2010

polaroid












Depois de espreitar pela janela o fim do
Verão, enfiou no prato do gira-discos o
Paulo de Carvalho e reencontrou na

polaroid

a blusa às riscas sobre os jeans e a
cabeleira alvoroçada, depois do empate por
cinco a cinco no largo da
igreja,
contra os dos Anjos. Colado estava como um
defesa de marcação aos lábios de
Eva, com o pescoço reclinado à

Marlon Brando

e o tronco teso. Rendida ela na alça es-
quiva do vestido, que lhe
emprestava um estilo sensual de

bailarina russa.

Quem não gostara da destreza fora o pulha do
senhor padre, que tudo vira do
alto da torre
e o excomungou da

catequese.

Incomplacente, a tia dela devolveu-
-a em meio das férias ao
paizinho,
que morava em França "e,
depois do amor, e
depois de nós,
o adeus, ooooo fiiiii-caaaaaaar-moooos

sóóóóóóóóóóóóoóóóós".

4 de maio de 2010

o abafador













O pai mecânico assava sardinhas à porta de
casa, com a blusa de alças aos buraquinhos a
estrangular-lhe, como se fosse uma
ligadura, o ventre inchado. Cuspia as
espinhas. No fim, sujava-se com a talhada da
melancia, lavando-se depois no tanque de cimento, onde os

insectos

morriam afogados. A mãe, Zulmira, vendia peixe no
mercado de Arroios. Se ela lhe desse uma
nota de vinte,
ele compraria ao senhor Quitério da drogaria o
berlinde da sorte,
para jogar à covas com o sobrinho da

florista.

E advertia que a Felismina dos buquês era uma
Maga Patalógica, e que se alcançasse primeiro do que ele o
abafador do velho droguista, derretê-lo-ia no
Monte Vesúvio,
a fim de fazer um talismã para o seu
riquinho, conhecido no bairro por

Rei do Bilas.

Embora perito em conduzir de cova em cova com uma
esfera o pirolito aristocrático do adversário, morria
sempre. Guerreiro sem espada, tornava a casa de
bolsos vazios, parando na montra da

drogaria

para congeminar uma emboscada ao
amuleto desse grande sovina com maneiras de
Tio Patinhas
e cheiro a potassa. Havia de ter uma
caganeira quando lhe faltasse na
caixa-forte o diabo da

moeda número um!

24 de abril de 2010

rouge, gasosa, serpentinas













Sombrearam com tons verdes os
olhos pequenos. Esfregaram as pestanas com
pomada de sândalo e
manjerona.
Cobriram de ouro as omoplatas e os
mamilos. Besuntaram, cúmplices, com
gordura de cabrito e sabão das
Gálias os antebraços e as
gargantas. Nas faces redondas puseram

rouge.

Ele convidara-as para a sua festa de
carnaval na casa de férias da
Trafaria.
Nesse domingo de Fevereiro, bateu-lhe à porta o
ouro do Nilo em duplicado. Foi abrir de
peito inchado, vestido à dono da
Bretanha e, recolhendo-as, uma e
outra, debaixo da túnica, conduziu-as ao
quintal, para uma

gasosa.

Cheiravam bem. Tomaria um banho no
meio das duas em leite de
cabra, mesmo sabendo que os seus soldados passavam
fome. Elas sorriam-lhe enigmáticas e
pisavam-lhe como cleópatras desafiadoras as
sandálias.
Davam-lhe beijos arrebatados, que se misturavam com
papelinhos de furador e

serpentinas.

Ao fim da tarde, acompanhou-as com a sua
espada ao cais de embarque, de onde
partiram com o papá, que diziam chamar-se
Ptolomeu. Cruzaram o Tejo num
cacilheiro melancólico,
refectido como em tela de cinema nos
óculos dele, que visionou com nostalgia o
regresso a casa das suas
rainhas.


22 de abril de 2010

o exame













Quando crescesse, teria também uma
cartola alta
e um fino bigode, para se exibir no
Cardinalli. Pediria a mão da
princesa Narda
e desposá-la-ia em Xanadu, num
quarto com cama de dossel e
televisão,
para verem juntos a

eucaristia dominical.

Adepto fanático do Mandrake, só desejava que o
célebre mágico dos quadradinhos
o transformasse num
pterodáctilo
à solta no dia do exame, que diziam ter
contas de fugir e

ditados custosos.

Deus, Senhor, que o perdoasse, mas gostaria que um
hectolitro de água benta se evaporasse por
cada verbo mal conjugado ou
tropeção nos

decimais.

Se o velho Mandrake não cumprisse, vestiria a
pele dum pobre moçárabe reconvertido e
partiria para o
Magrebe,
mesmo sabendo que no meio da
cáfila não acharia uma
doce Narda para o consolar nesse
infortúnio.

O exame é que não.

20 de abril de 2010

a pérola













Saía cedo à segunda-feira com um lenço de
organza cintilante sobre os ombros e um
cíngulo clássico de contas de
jaspe. Levava à escola, pela mão que cheirava a
creme Atrix,
o filho precioso, para lá o deixar, após um

beijo

repenicado, embrulhadinho no
bibe lavado, como se se tratasse duma
jóia persa.
Juntos seguiam, no tempo das férias, para uma
oficina de bijutarias com cheiro a
pérolas nacaradas e cornalinas de brilho cambiante, num
glamouroso terceiro andar que espreitava o

Rossio.

À uma, comiam, num
estabelecimento da Rua da Prata com cheiro a
fritos. Ela comprava-lhe, depois do
bife com ovo a cavalo, o último número do
Zé Carioca.
Para si, feminina, metia na mala a
revista Crónica,
que folhearia ao fim da tarde no banco do

Metro

depois de pousar na boca plástica uma
chiclete.
Ele, enlevado, fitá-la-ia, até
emergirem encalorados do ventre dos

Anjos.

Mesmo sem brincos de lápis-lazúli nem
pestanas de Sophia Loren, ela
encantava-o, como saída de uma
concha em jeito de

pérola iridescente.

19 de abril de 2010

detergente, caneladas, burriés












De mala às costas, Guilherme transpunha a
porta de casa, pesando as
contas de multiplicar que lhe enxameavam o
caderno diário.
Dino visitava-o no fim dos deveres, para
imaginarem, flatulentos, a

bicicleta

à Joaquim Agostinho que a sorte lhes traria pelo
Natal, ou para cus-
pirem com balanço e ao desafio para o terraço da
porteira,
que era estúpida e cheirava a

Omo.

Coleccionavam, no dia seguinte, buracos nas calças e
nódoas negras nas
canelas.
Na ausência de esférico, pegavam no
“Espaço: 1999” e acomodavam-se com as
mãos riscadas pelas

canetas

de feltro aos comandos da
Eagle, para descolarem como
Alan Carter e John Koenig em direcção a
Marte.
Às vezes, escondiam-se num
recanto qualquer a tirar

macacos

do nariz e a moldá-los entre os
dedos
como berlindes, para os lançarem depois pelo
ar, a ver quem chegava mais longe.