19 de junho de 2010

concorde












Vira-o rasgar o céu de Paris no
mês de Julho, quando visitara com os primos franceses a
Torre Eiffel.
O pai jurava que se deslocaria a caminho da
América, do lado oposto do
Oceano Atlântico, para lá chegar primeiro que o
sol e o seu próprio

som.

Dizia ver-se espantosamente pela janela a
Terra curva. E se alguém,
perdido,
no meio do mar, pudesse avistá-lo, não escutaria nenhum
ruído até que a vista enfim o
perdesse e então lhe chegassem, como
trovoada,
as ondas de choque e o

estrondo sónico.

Parecido com aquilo, ele só conhecia o
Niki Lauda. Correu por isso à
biblioteca a saber tudo do
mítico pássaro de nariz adunco, em forma de
lápis.
A tia Angélica expediu-lhe de França, pelo Natal, um
um modelo à escala. Dependurou-o no
céu do quarto em pose de

gaivota

com fio de nylon. Perdeu-se depois, durante uns anos, a
olhar para cima, imaginando-se de
camisa branca
na carlinga do Concorde a caminho da
América
e do seu sonho: uma aterragem glamourosa em
Nova Iorque,
ao som sinfónico de monsieur

Pourcel.

15 de junho de 2010

os sousa












Partiam melódicos com o
Demis Roussos pela estrada fora. Rolavam
felizes, na Primavera, para um
piquenique
num pinhal qualquer, a caminho do
Meco. Paravam o

Mini

em domingos molhados numa valeta de
Sacavém e, enquanto as
Sagres
esperavam por eles no
frigorífico, saíam à caça de
caracóis. Metiam na

mala,

quando vinham as férias, a
tenda comprada a prestações e desa-
-pareciam para o sol do
Algarve,
dependurando sob as
estrelas, por escassos dias, a
cama de rede e o

petromax.

Depois, a curva por Estremoz e o
Arraial. Setembro, o Avante e o
Álvaro Cunhal. O Norte viria pelo

Natal:

andavam de burro em Samaiões e comiam
alheiras, voltando bucólicos ao
Alto do Pina,
para se domesticarem,
televisivos, com as
variedades do

Reveillon.

Largavam de Mini, no dia seguinte, cruzando
melódicos, com o
Demis Roussos, a Marginal, até à
Boca do Inferno.

“Pevides, tremoços, queijadas de Sintra!”


10 de junho de 2010

fiesta












Repentinos, sibilantes, choviam
foguetes. Misturado com o cheiro a estrume e o
traje festeiro das raparigas, corria o suor de
improvisados

toureiros.

Engalanados de
peões de brega, encenavam cites e lances de
capote. Faziam de conta que empunhavam
bandarilhas
e, às vezes, dançavam, como

berlindes,

por baixo do
bicho. Lavavam as feridas com
cervejas minis e,
logo renascidos, de mãos na ilharga e
curvilíneos,
citavam de largo, executando
paradinhas, e prometendo, como
acrobáticos guarda-redes, suster no abdómen a

cabeçada.

Mas o bovídeo, que até se vestia da cor do
Eusébio, passava à
defesa. Inerte ficava, com focinho de
Jesus Cristo, pregado às

tábuas.

O público, bravo, marrava com
ele. Cornudo, teimoso, assim seria até que
viessem, chocalheiras, as vacas madrinhas para o
recolher. Debandava indigno, sem seguir glorificado para o
matadouro,
como os tios de cartaz. O povo vaiava. Recomeçava o
paso doble. De novo estalava no céu um

morteiro.

2 de junho de 2010

pátria












Também o seu filho penara de botas e
camuflado no mato de Nampula. Tornara à
metrópole ao fim duns tempos, sem
arranhões. Que era valente. Saía ao pai, graças a

Deus.

Olhando a rua desinteressado pela
janela, como se houvesse
entre ele e o mundo uma
nuvem branca
que o não deixasse ver nada, Tomé
escutava confidente o

motorista de Taxi,

que tinha o tique despreocupado de
afagar o bigode vicking e
uma taberna na Rua das Pretas à
espera dele depois do turno com um
jarro de vinho e um prato de

pipis.

Largá-lo-ia no cais da Rocha com a
esposa magra e o filho pequeno, que lhes
perguntava a cheirar a
Toddy o sentido da
pátria.
Tomé apertou-o, enquanto deixava desa-
parecer, imperturbável como um
vicking
a quem não morrem os

filhos

valentes, o motorista de Taxi. Ali
ficaram, cabisbaixos, sob a sombra do
grande navio, esperando o mano devolvido à
terra numa caixa de pinho, com o
dever cumprido. Ao vento, no mastro, o
escudo pomposo e os

castelinhos.

1 de junho de 2010

pedra rara













Que o Rei de Copas era o único sem
bigode. Que avó em russo era
Babushka. Que havia no
mundo tantas galinhas quanto
pessoas. Que os escaravelhos sabiam a
fruta. Que não existiam

flores pretas.

Maria da Luz tinha
olhos grandes.
Caracterizava-se, talvez por isso, por ser a
alminha que mais sabia acerca de
tudo o que não viesse nos
livros. O seu saber desconcertante e o
nome de gosto iluminista a
condizer faziam dela uma

pedra rara.

Vivia num beco do
Alto do Pina, sob guarida da
tia Aurora, que não lhe comprava as
sapatilhas
para a ginástica nem
Tulicreme
enquanto não viesse o

pai embarcado.

Um dia a vida escangalhou-se pela
escada abaixo
na pessoa trágica da
Tia Aurora.
Maria levou-lhe no
adeus para sempre o ramo de

gardénias

de que ela tanto gostava. Marchou-se com o
pai, umas semanas depois, em direcção à
Venezuela.
Partiu sem novas do Tulicreme. Sem
alegria nos olhos grandes. Sem

sapatilhas.