
Vira-o rasgar o céu de Paris no
mês de Julho, quando visitara com os primos franceses a
Torre Eiffel.
O pai jurava que se deslocaria a caminho da
América, do lado oposto do
Oceano Atlântico, para lá chegar primeiro que o
sol e o seu próprio
som.
Dizia ver-se espantosamente pela janela a
Terra curva. E se alguém,
perdido,
no meio do mar, pudesse avistá-lo, não escutaria nenhum
ruído até que a vista enfim o
perdesse e então lhe chegassem, como
trovoada,
as ondas de choque e o
estrondo sónico.
Parecido com aquilo, ele só conhecia o
Niki Lauda. Correu por isso à
biblioteca a saber tudo do
mítico pássaro de nariz adunco, em forma de
lápis.
A tia Angélica expediu-lhe de França, pelo Natal, um
um modelo à escala. Dependurou-o no
céu do quarto em pose de
gaivota
com fio de nylon. Perdeu-se depois, durante uns anos, a
olhar para cima, imaginando-se de
camisa branca
na carlinga do Concorde a caminho da
América
e do seu sonho: uma aterragem glamourosa em
Nova Iorque,
ao som sinfónico de monsieur
Pourcel.




