22 de julho de 2010

o rapaz da máquina fotográfica












Naquela tarde, não tocaria à
campainha.
Imaginou-a entusiasmada na varanda, entre a
glicínia de cachos floridos,
pavoneando-se como uma
estrela de cinema
perante o nórdico recém chegado e a sua

Kodak.

Não voltaria a ler-lhe os versos do
António Aleixo, a meio do pão com
doce de tomate. A pendurar-lhe entre os cabelos uma
papoila.
A colher para ela, do topo das
silvas, a troco de nódoas e
arranhaduras,

amoras grandes.

Reclamaria no dia seguinte o
grilo cantante
que lhe oferecera pela Quaresma, numa
gaiola de aramezinhos
que ele mesmo fizera. Desdita, ela, pediria
tréguas. Mas vê-lo-ia partir desavindo, sem
compreender por que se entregara de

verniz nas unhas

e olhos pintados aos galanteios dum
príncipe sueco.
Sem poesias nem frutos silvestres; com a Reflex a tiracolo e um
Super Maxi, ele conquistara-a!
Bem lhe dissera o bom do avô não haver
regra sem excepção nem
mulher sem senão.
Perdão, por isso, era o que faltava! Nem
com um banho de

acetona!

19 de julho de 2010

a filha do embaixador













Como rematando um show de barras assimétricas, des-
fez-se gímnica do cavalinho após o
flash,
correndo para ele com o seu dinâmico
corpo raquítico
e as tranças louras esguedelhadas, à

boneca de trapos.

Avistara-o junto à tília do jardim com a
bola de basquete,
enquanto esperava sobre o
pónei com rabo de corda o passarinho do

senhor fotógrafo.

Partiria no dia seguinte para a capital da
bola de creme, onde os
bonecos dos semáforos tinham
chapéu de agricultor e
corpo de saloio atarracado. Para a não
esquecer, deixar-lhe-ia de recordação a
fotografia do cavalinho e o

bastãozinho

de majorette com que marchara no
carnaval.
Frau Böll chamou-a, que tinham de ir à
cabeleireira e à Rosinha dos

atoalhados.

Que a não esquecesse. Nem que forçada a pular o
muro, regressaria. Havia de
vê-lo, daí a uns anos, a encestar da
linha de lance livre com a
camisola do

Sangalhos.

10 de julho de 2010

um beijo daqueles













Ninguém pulava como Mimi o
cavalo com arções. Possuía
pernas
incrivelmente arti-
cula-
das, que aconchegava durante o
inverno
na intimidade dos
seus grossos

colãs.

Sem grande ginástica, seduziu
Tozé, garoto com estampa de
aviador e temperamento de
Sandokan.
A meio das aulas de
catequese, man-
dava-lhe cartas muito bem redigidas a cheirar a
perfume.
Ganhava de volta, embrulhadinhos num

planador,

jetémes fogosos. Caçou-os um dia o
senhor vigário,
que em tom teatral glosou Tozé perante o
rebanho,
elevando a voz no
fim da prosa para enfatizar o seu pedido de
um beijo daqueles
como os que davam na

"Gabriela".

Tozé susteve-se, rosnando baixinho, como um
tigre da Malásia.
Mimi curvou desamparada sobre a
Bíblia
a sua pobre cabeça. Foi como
se caísse do

cavalo com arções.