21 de maio de 2010

champanhe ou margarina?













Tinha sardas e lia livros do
Michel Vaillant. Vestia-se bem. Forrava o
caderno com cromos da bola e transferia-
-se aos domingos para o
Estádio da Luz, onde o esperava o

Eusébio.

Tinha conversas de
polimento. Falava elegante sobre a
crise do petróleo e a descolonização. Tinha no
quarto alcatifado um
gira-discos da Grundig e ouvia
Amália com o coração. Seria
piloto quando fosse grande. Correria

Le Mans,

como o herói de Jean Graton, e, depois do
pódio, teria uma bela rapariga loira à
espera dele num hotel do
Mónaco para uma
noite de

champanhe.

Enquanto o tempo não
passasse, continuaria a treinar em
casa com a afilhada da vizinha, a quem ajudava na
aritmética.
Vaillantina, como ele lhe chamava, usava
calças de patchwork e
pulseirinhas com

missangas.

Não era loira, mas tinha olhos de
actriz francesa e, depois das
contas de dividir, fazia-lhe
torradas e via com ele a sessão do
Bonanza. Sem que ele lhe pedisse, ainda o
abraçava fogosamente e dava-lhe beijos a saber a
Planta. Faria melhor

Françoise Latour?

19 de maio de 2010

o projector












Morrera de cólera o velho de binóculos ao
pescoço e bigode à czar, que
fumava dentro duma moldura sobre o
piano um certo

cachimbo

de roseira brava. Eduardo
sorria, enquanto, pomposo, acariciava com um
gracejo o vetusto engenho: «Sem
bobines, seria uma
máquina de café». E, perante os

olhos

maravilhados da assistência, ressuscitava no
quarto escuro a maquineta, do tempo de
Carmona. Leões, serpentes e

crocodilos:

a fauna inteira migrara de África para a moradia do
Areeiro, nas curtas-metragens do
avôzinho. Eduardo vestia-se de
narrador.
Explicava a táctica dos
leopardos e os arrufos dos
gorilas, enquanto a

mana,

mostrando-se temente, se enroscava como
tímida macaca
no melhor amigo – compartilhavam um pacote de
Sugus
e terminavam foragidos, a
visionar, sem riscos e a
cores, como no
View Master,
os sonhos guardados no

quarto dela.

15 de maio de 2010

dama das camélias












Deixava a escola com o
paizinho, que se transportava numa
Lambretta.
Diego erguia-se no muro do pátio em
bicos
de
pés,
para a ver partir de cabelo esvoaçante, com pinta de

jockey.

Sonhava-se dono da
motoreta, que imaginava da cor do
ébano, com um Z, no flanco, em
labaredas.
Sonhou-se nela, de capa e espada e
chapéu negro, em direcção a um
campo de sorgo ou de
algodão
no meio do

México,

com o coração da sua señorita a soar-lhe nas
costas e ele o herói. Elena ela, arranjadinha de
alto
a
baixo
como a donzela do
mascarilha,
com o seu clássico vestido folhado e a
flor vermelha no
cabelo.
Que mosca lhe dera pelo

Entrudo,

tomando el Zorro por cabotino? – desceu-se da
mota,
vestida à Dama das Camélias e, com passinhos de
mademoiselle,
arredou-se dele, que a procurava do meio do
pátio em pose patética de
espadachim.
Aristocrática, foi abraçar com
traje cortês e almiscarada de pó de arroz o

Pimpinela Escarlate!...

10 de maio de 2010

polaroid












Depois de espreitar pela janela o fim do
Verão, enfiou no prato do gira-discos o
Paulo de Carvalho e reencontrou na

polaroid

a blusa às riscas sobre os jeans e a
cabeleira alvoroçada, depois do empate por
cinco a cinco no largo da
igreja,
contra os dos Anjos. Colado estava como um
defesa de marcação aos lábios de
Eva, com o pescoço reclinado à

Marlon Brando

e o tronco teso. Rendida ela na alça es-
quiva do vestido, que lhe
emprestava um estilo sensual de

bailarina russa.

Quem não gostara da destreza fora o pulha do
senhor padre, que tudo vira do
alto da torre
e o excomungou da

catequese.

Incomplacente, a tia dela devolveu-
-a em meio das férias ao
paizinho,
que morava em França "e,
depois do amor, e
depois de nós,
o adeus, ooooo fiiiii-caaaaaaar-moooos

sóóóóóóóóóóóóoóóóós".

4 de maio de 2010

o abafador













O pai mecânico assava sardinhas à porta de
casa, com a blusa de alças aos buraquinhos a
estrangular-lhe, como se fosse uma
ligadura, o ventre inchado. Cuspia as
espinhas. No fim, sujava-se com a talhada da
melancia, lavando-se depois no tanque de cimento, onde os

insectos

morriam afogados. A mãe, Zulmira, vendia peixe no
mercado de Arroios. Se ela lhe desse uma
nota de vinte,
ele compraria ao senhor Quitério da drogaria o
berlinde da sorte,
para jogar à covas com o sobrinho da

florista.

E advertia que a Felismina dos buquês era uma
Maga Patalógica, e que se alcançasse primeiro do que ele o
abafador do velho droguista, derretê-lo-ia no
Monte Vesúvio,
a fim de fazer um talismã para o seu
riquinho, conhecido no bairro por

Rei do Bilas.

Embora perito em conduzir de cova em cova com uma
esfera o pirolito aristocrático do adversário, morria
sempre. Guerreiro sem espada, tornava a casa de
bolsos vazios, parando na montra da

drogaria

para congeminar uma emboscada ao
amuleto desse grande sovina com maneiras de
Tio Patinhas
e cheiro a potassa. Havia de ter uma
caganeira quando lhe faltasse na
caixa-forte o diabo da

moeda número um!