29 de outubro de 2010

a ilha













O leite quente. Os olhos mínimos. Com
remelas.
Maria pedia-lhe para se apressar, enquanto
guardava na marmita as
costeletas.
Jesus enfiava o lábio de cima na
caneca dos pastorinhos e analisava com testa de ciência a

lata de Milo.

A barba rala. Botins calçados. Caído no maple , José
roncava,
recém chegado da
amante francesa. De manhã, largava-
-a, mexeriqueira, no salão, com os

dedos compridos

enfiados nos olhos da
manicure, que lhe consertava os
erros das unhas e da
língua.
Pelo inverno, depois da comédia no
Parque Mayer, José aquecia-a no
Boca de Sapo,
com a cassete da

Jane Birkin.

Às vezes, perdiam-se, passando os rostos da cor de
cerejas pelo guichê duma
pensão
com cheiro a velas e
naftalina. Maria calava, com o
destino que deus lhe dera, os

loiros cabelos

que não eram seus. Jesus, menino, lhe
sobejava, como uma
ilha
no coração. O leite
quente. Os olhos mínimos. Com

remelas.

10 de outubro de 2010

peregrinação












Careca e pesado, fumando sempre, o
tio Moisés vivia sentado como um
buda tailandês,
coçando o lombo com o pé descalço ao
cão Piruças – fiel apóstolo que só o largava para um
xixi
junto à cabana do quintal, ao pé dos

coentros.

Lá repisou, naquela tarde, a tia Perpétua o
deitar cedo, para não falharem o
carro das sete. Carregando a cruz do
paganismo, conspirava o
primo Libânio – avesso à história dos

milagres,

citava de cor o Ievtuchenko, de quem se tornara,
nos subterrâneos da faculdade, amigo do peito. Serafim
escutava-o, confidente, enquanto
mascavam no quintal umas
azedas,
entre as galinhas da Perpétua e a
coelheira do Moisés, com bebedouros e
caganitas onde aterravam as

moscas.

O primo Libânio batia no
clero,
que alimentava em nome do Estado um
povo de joelhos e o
caprichoso mercado da fé, à sombra de
Fátima!
Serafim espionava, a ver com olhos de

clandestino

se a tia assomava. O primo Libânio imaginava com
piedade o tio Moisés, de
barriga deserta,
a comer as moelas da Perpétua num
parque de merendas,
para compensar as dores nos pés da

procissão das velas.

1 de outubro de 2010

horizontes













Calados ambos e, como figuras de
mural etrusco, ele muito vermelho e branca ela. A
avó Felismina descar-
rilando, cobrindo-se-lhe de moscas a
voz bigodeira. Os filhos pequenos! Não tinham dó dos

filhos pequenos?

Sabino queixou-se, de mãos atadas, olhando o
relógio.
Pegou nas malas de coiro castanho e,
espadaúdo, soltou um
adeus insuportável. Com cheiro a culpas e a
tabaco, arredou-se da
sogra. Alice beijou-a. Que lhe
não deixasse morrer as flores e tomasse os
remédios. Desapareceu na escuridão da
ferrovia como um

espectro,

em direcção a um certo país das
maravilhas que, doutro mundo, a
reclamava. Amortalhada na
veste negra
ficou Felismina, severa

sombra

rumorejante. Marchou-se vergada, como se
tornada dum enterro, em direcção ao
monte. Sentou-se à ilharga da
videira, que Sabino plantara, com os
netos pequenos. Sem

horizontes.

Olhando, insípida, as orquídeas e os
crisântemos.
De novo, Alice: que lhe não deixasse morrer as
flores.
Os olhos queimaram-se-lhe. Sentiu uma
água melancólica que lhe regou as

pupilas.