4 de maio de 2010

o abafador













O pai mecânico assava sardinhas à porta de
casa, com a blusa de alças aos buraquinhos a
estrangular-lhe, como se fosse uma
ligadura, o ventre inchado. Cuspia as
espinhas. No fim, sujava-se com a talhada da
melancia, lavando-se depois no tanque de cimento, onde os

insectos

morriam afogados. A mãe, Zulmira, vendia peixe no
mercado de Arroios. Se ela lhe desse uma
nota de vinte,
ele compraria ao senhor Quitério da drogaria o
berlinde da sorte,
para jogar à covas com o sobrinho da

florista.

E advertia que a Felismina dos buquês era uma
Maga Patalógica, e que se alcançasse primeiro do que ele o
abafador do velho droguista, derretê-lo-ia no
Monte Vesúvio,
a fim de fazer um talismã para o seu
riquinho, conhecido no bairro por

Rei do Bilas.

Embora perito em conduzir de cova em cova com uma
esfera o pirolito aristocrático do adversário, morria
sempre. Guerreiro sem espada, tornava a casa de
bolsos vazios, parando na montra da

drogaria

para congeminar uma emboscada ao
amuleto desse grande sovina com maneiras de
Tio Patinhas
e cheiro a potassa. Havia de ter uma
caganeira quando lhe faltasse na
caixa-forte o diabo da

moeda número um!

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