
Tinha sardas e lia livros do
Michel Vaillant. Vestia-se bem. Forrava o
caderno com cromos da bola e transferia-
-se aos domingos para o
Estádio da Luz, onde o esperava o
Eusébio.
Tinha conversas de
polimento. Falava elegante sobre a
crise do petróleo e a descolonização. Tinha no
quarto alcatifado um
gira-discos da Grundig e ouvia
Amália com o coração. Seria
piloto quando fosse grande. Correria
Le Mans,
como o herói de Jean Graton, e, depois do
pódio, teria uma bela rapariga loira à
espera dele num hotel do
Mónaco para uma
noite de
champanhe.
Enquanto o tempo não
passasse, continuaria a treinar em
casa com a afilhada da vizinha, a quem ajudava na
aritmética.
Vaillantina, como ele lhe chamava, usava
calças de patchwork e
pulseirinhas com
missangas.
Não era loira, mas tinha olhos de
actriz francesa e, depois das
contas de dividir, fazia-lhe
torradas e via com ele a sessão do
Bonanza. Sem que ele lhe pedisse, ainda o
abraçava fogosamente e dava-lhe beijos a saber a
Planta. Faria melhor
Françoise Latour?

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