25 de novembro de 2010

as time goes by












Plantando Mariana do outro lado do
auscultador, ao toque dramático do telefone ninguém
acorreu. Talvez Cristina o não escutasse com o
secador de cabelo. Pior Arlete, que surda era como uma
porta e nesse instante rezaria o

terço.

Onde estava Aurora àquela hora, pregando-a no
Éden com os bilhetes na
mão? Luigi esperava-a noutra parte da
cidade, cantando para dentro uma
canção nervosa. Pensou-a descendo o degrau do
eléctrico, entre os homens com
chapéus e gabardines,
que subiam anímicos ao Restelo para o

jogo da bola.

Os olhos cravaram-se-lhe penosamente nos
ponteiros do Ômega. Se não era
Aurora, onde estava ela àquela hora, causando-lhe
cólicas bogartianas? Altiva chegou, de cintura estreita e
chapéu clássico,
como Ingrid Bergman. Olharam os

Jerónimos,

pela última vez, e a via sacra do jardim, onde aos
domingos se comportavam como um
casal de pombos.
Chegariam, céleres, da Calábria, mil desculpas a
Mariana. E o relato dum
amor
inexplicável, como se Aurora desaparecera
verdadeira
do bairro de Alcântara com o
Humphrey Bogart. Como num
filme.

The End.

Para ti, lagartinha...


13 de novembro de 2010

a vizinha do quarto andar












Com os cabelos refugiados num
toalhão de cornucópias, mandou-o

en-

trar. Subira insofrido, mandado pela mãe,
para procurar se a menina Isaura teria de sobra algum
Vigor. “A ver se dá sorte", endereçou-lhe o
tipo de bigode que fumava no
quarto com modos de
actor enquanto preenchia um
Totobola.

José, perdido, só tinha olhos para a
cama desfeita da menina Isaura, comprada há dias na

Moviflor.

Dizia-se dela que tinha fama no
Tamariz
e "costurava" nas "soirés" do Casino Estoril os seus
vestidos cinematográficos, à
Jane Fonda. A dona Joaquina da
padaria vendia mesmo que um dos
homens
que habitualmente a trazia a
casa vertia águas numa

sanita

de ouro! Isaura trouxe-lhe o desejado
Vigor e José despediu-se, embriagado com o
sabonete Lux.
Sentiu-se caído duma nuvem alta quando chegou ao

rés-do-chão

4 de novembro de 2010

a carta













Brincavam os pombos, como sombras chinesas, nas
telhas de vidro. Sentado à beira do
colchão, Zezé bocejava, olhando a caixa de
bichos-da-seda
que lhe dera o pai, antes de o deixar com a
avó Piedade
e de o trocar por uma

máquina escavadora

do porto de Sines. Do
lustre antigo, pendia uma
aranha,
que o escoltava enfiado nas
meias. Zezé, roufenho, zunia que
sim. A avó Piedade, que matava os
ratos do quintal com trigo roxo, parecera-lhe
mole, interrogando-o, com brandura, da cozinha, se queria o

Toddy.

O pai quando vem? – tornava-lhe ele do meio da sala com os
dentes tortos, enquanto explorava uma
narina. Piedade esquivou-
-se direito ao quarto, vergada aos
bicos de papagaio
e balouçando a perna bamba, que pedia um

calço.

Colou-se defronte da virgem santa e, mastigando a
carta de luto,
do Ministério das Obras Públicas, escutava em
eco, pesadamente: o

pai

quando vem? Volveu nervosa, como um soldado que viesse
matá-lo. Mas, na cadeira onde o deixara, folgava o

gato.

Ainda o avistou pela janela, ao fundo da
rua, seguido do céu pelo Mimoso – seu
papagaio desconcertante, de

papel almaço.

2 de novembro de 2010

belmiro












Até mulatas para lhe coçarem as costas! Tinha
dinheiro e criados para
tudo! – rezava, de cor, o avô Belmiro, sobre o
fascista
a quem a Domingas lavava as
cuecas. Velho marialva e filho dum cão que,
metido no Bentley, visitava à noite as

boites da Linha!

Para não o ouvir, a avó Domingas espregui-
çava-se na cozinha, de combinação com
flores, cantando o fado enquanto se
peidava e fritava

iscas.

Depois de jantar e
ouvir a Domingas falar da festa da paróquia e do
peditório, o avô Belmiro evaporava-se, mordendo nos
padres,
que eram germes de bigamia e
concubinato. Azedo, lá ia, tratar do fígado no

Cais do Sodré,

com as aguardentes. Voltava a casa aos zigue-
-zagues, entoando modinhas, para se olvidar dos tempos no
Aljube e dos esbirros do
governo, que, teimosamente, ainda o
perseguiam. Cedo, no sábado, reencontrava na
varanda o lavatório de
ferro forjado e o

espelho

antigo, do tempo de
solteiro. Então, barbeava-se. À
tarde, janota, acompanhado dum
saco de pevides,
corria ao “Piolho”, para a
sessão contínua. Recolhia a casa, mordendo na
chuva, depois de fisgar na
Rua da Palma o pifarinho do

amola-tesouras.