
Brincavam os pombos, como sombras chinesas, nas
telhas de vidro. Sentado à beira do
colchão, Zezé bocejava, olhando a caixa de
bichos-da-seda
que lhe dera o pai, antes de o deixar com a
avó Piedade
e de o trocar por uma
máquina escavadora
do porto de Sines. Do
lustre antigo, pendia uma
aranha,
que o escoltava enfiado nas
meias. Zezé, roufenho, zunia que
sim. A avó Piedade, que matava os
ratos do quintal com trigo roxo, parecera-lhe
mole, interrogando-o, com brandura, da cozinha, se queria o
Toddy.
O pai quando vem? – tornava-lhe ele do meio da sala com os
dentes tortos, enquanto explorava uma
narina. Piedade esquivou-
-se direito ao quarto, vergada aos
bicos de papagaio
e balouçando a perna bamba, que pedia um
calço.
Colou-se defronte da virgem santa e, mastigando a
carta de luto,
do Ministério das Obras Públicas, escutava em
eco, pesadamente: o
pai
quando vem? Volveu nervosa, como um soldado que viesse
matá-lo. Mas, na cadeira onde o deixara, folgava o
gato.
Ainda o avistou pela janela, ao fundo da
rua, seguido do céu pelo Mimoso – seu
papagaio desconcertante, de
papel almaço.

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