10 de outubro de 2010

peregrinação












Careca e pesado, fumando sempre, o
tio Moisés vivia sentado como um
buda tailandês,
coçando o lombo com o pé descalço ao
cão Piruças – fiel apóstolo que só o largava para um
xixi
junto à cabana do quintal, ao pé dos

coentros.

Lá repisou, naquela tarde, a tia Perpétua o
deitar cedo, para não falharem o
carro das sete. Carregando a cruz do
paganismo, conspirava o
primo Libânio – avesso à história dos

milagres,

citava de cor o Ievtuchenko, de quem se tornara,
nos subterrâneos da faculdade, amigo do peito. Serafim
escutava-o, confidente, enquanto
mascavam no quintal umas
azedas,
entre as galinhas da Perpétua e a
coelheira do Moisés, com bebedouros e
caganitas onde aterravam as

moscas.

O primo Libânio batia no
clero,
que alimentava em nome do Estado um
povo de joelhos e o
caprichoso mercado da fé, à sombra de
Fátima!
Serafim espionava, a ver com olhos de

clandestino

se a tia assomava. O primo Libânio imaginava com
piedade o tio Moisés, de
barriga deserta,
a comer as moelas da Perpétua num
parque de merendas,
para compensar as dores nos pés da

procissão das velas.

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