1 de outubro de 2010

horizontes













Calados ambos e, como figuras de
mural etrusco, ele muito vermelho e branca ela. A
avó Felismina descar-
rilando, cobrindo-se-lhe de moscas a
voz bigodeira. Os filhos pequenos! Não tinham dó dos

filhos pequenos?

Sabino queixou-se, de mãos atadas, olhando o
relógio.
Pegou nas malas de coiro castanho e,
espadaúdo, soltou um
adeus insuportável. Com cheiro a culpas e a
tabaco, arredou-se da
sogra. Alice beijou-a. Que lhe
não deixasse morrer as flores e tomasse os
remédios. Desapareceu na escuridão da
ferrovia como um

espectro,

em direcção a um certo país das
maravilhas que, doutro mundo, a
reclamava. Amortalhada na
veste negra
ficou Felismina, severa

sombra

rumorejante. Marchou-se vergada, como se
tornada dum enterro, em direcção ao
monte. Sentou-se à ilharga da
videira, que Sabino plantara, com os
netos pequenos. Sem

horizontes.

Olhando, insípida, as orquídeas e os
crisântemos.
De novo, Alice: que lhe não deixasse morrer as
flores.
Os olhos queimaram-se-lhe. Sentiu uma
água melancólica que lhe regou as

pupilas.

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