29 de outubro de 2010

a ilha













O leite quente. Os olhos mínimos. Com
remelas.
Maria pedia-lhe para se apressar, enquanto
guardava na marmita as
costeletas.
Jesus enfiava o lábio de cima na
caneca dos pastorinhos e analisava com testa de ciência a

lata de Milo.

A barba rala. Botins calçados. Caído no maple , José
roncava,
recém chegado da
amante francesa. De manhã, largava-
-a, mexeriqueira, no salão, com os

dedos compridos

enfiados nos olhos da
manicure, que lhe consertava os
erros das unhas e da
língua.
Pelo inverno, depois da comédia no
Parque Mayer, José aquecia-a no
Boca de Sapo,
com a cassete da

Jane Birkin.

Às vezes, perdiam-se, passando os rostos da cor de
cerejas pelo guichê duma
pensão
com cheiro a velas e
naftalina. Maria calava, com o
destino que deus lhe dera, os

loiros cabelos

que não eram seus. Jesus, menino, lhe
sobejava, como uma
ilha
no coração. O leite
quente. Os olhos mínimos. Com

remelas.

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