
Que o Rei de Copas era o único sem
bigode. Que avó em russo era
Babushka. Que havia no
mundo tantas galinhas quanto
pessoas. Que os escaravelhos sabiam a
fruta. Que não existiam
flores pretas.
Maria da Luz tinha
olhos grandes.
Caracterizava-se, talvez por isso, por ser a
alminha que mais sabia acerca de
tudo o que não viesse nos
livros. O seu saber desconcertante e o
nome de gosto iluminista a
condizer faziam dela uma
pedra rara.
Vivia num beco do
Alto do Pina, sob guarida da
tia Aurora, que não lhe comprava as
sapatilhas
para a ginástica nem
Tulicreme
enquanto não viesse o
pai embarcado.
Um dia a vida escangalhou-se pela
escada abaixo
na pessoa trágica da
Tia Aurora.
Maria levou-lhe no
adeus para sempre o ramo de
gardénias
de que ela tanto gostava. Marchou-se com o
pai, umas semanas depois, em direcção à
Venezuela.
Partiu sem novas do Tulicreme. Sem
alegria nos olhos grandes. Sem
sapatilhas.

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