13 de setembro de 2010

o pintor













Capaz seria, como Jan Palach, de pegar-se
fogo. O avô espanhol republicano fora a
centelha - vivia em
Málaga,
no coração de Trinidad, onde
aguardava a visita dele a meio de
Agosto, numas águas furtadas com cheiro a
linhaça e tintas de

óleo.

De manhã, pintava. À noite, estendia-se no
canapé com um livro de
Lorca,
beberricando compridamente o seu
conhaque, enquanto
Picasso,
o velho siamês, lhe lambia os
pés. Recolhia ao quarto com dores nas
costas, depois de expulsar pela
janela a fumarola de um

Ducado

e suspender na torre de San Pablo os
olhos amenos, da cor do mar da
Andaluzia.
Vicente escrevia-lhe. Tinha saudades de
passear com ele. De comer com ele
pescaíto frito
numa esplanada de Guadalmar. Ao melhor amigo mostrara o
disco de verdial malaguenho que de lá trouxera no
último Verão e o

sombrero

de palma. Também lhe falara da Primavera de
sessenta e oito e de
Jan Palach.
Só em Lisboa o tempo morria, com o seu crónico
domingo cinzento: de manhã missa, à tarde
cinema – os manos saíam até ao
Condes
para verem os sopapos do
Bud Spencer e depois passarem pela
Pindô para um gelado de
fruta. Ele, arredio, ficava em casa. Preferia os
bonecos do Vasco Granja, com sabor a

Checoslováquia.

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