29 de agosto de 2010

coração itinerante













Escutava ainda o rufo suspenso dos
timbales
e a voz do mestre de cerimónias, emproada e
sustenida, abrindo o número do

funâmbulo.

Pareceu-lhe ver, no terreiro deserto, com a
fronte voltada para o fim do mundo, o engolidor de
fogo.
François, il-même, arlequim vistoso, em
simultâneo mestre de andas e

malabares.

Talvez voltasse no ano seguinte e a convidasse para um
número a dois. Segui-lo-ia, engalanada de plumas brancas e
maiô, da velha rulote até à liça, para cruzarem de
bicicleta,
venturosos e palpitantes, a

corda bamba.

Talvez voltasse. Mas, até lá, sobrar-lhe-ia o
terreiro deserto, que cruzaria de manhã cedo a caminho da
escola, rigorosa e sedentária, que lhe educava as

ilusões.

Regressaria Jean François? Sorriu confiante, ao recordar a
voz cigana de Carmenzita, que num
baralho de pergaminho
a viu cruzar de bicileta a corda bamba e lhe fez
rufar como um timbale o

coração itinerante.

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